Li hoje no Popular a matéria sobre o Alcides Rodrigues reconhecendo que está investindo numa terceira via para disputa eleitoral do ano que vem. Muito esclarecedora. Agora o governador não tem mais como se esquivar, dizendo que ainda não é “o momento oportuno” para se falar de eleições. A matéria pode ser lida aqui, desde que você seja assinante do jornal.
Mas lendo a entrevista ping-pong do Alcides, com aquelas evasivas típicas de políticos, fiquei imaginando como seria se o repórter tivesse entrevistado o Cléber Machado. O locutor da Rede Globo ficou famoso no Youtube e no programa CQC pela confusão ao expor suas idéias. Quem não o conhece ou não sabe do que estou falando, pode clicar no vídeo abaixo ou então entrar no perfil fake do locutor no twitter: @oclebermachado.
Se você viu o vídeo, deve ter pensado: “Mas nossos políticos são iguais.” Acho que tem uma diferença básica. a diferença não está na confusão das idéias e sim na capacidade intelectual dos políticos de fugirem das perguntas dos repórteres, falando um monte de coisa e ao mesmo tempo não dizendo nada.
Segue abaixo uma hipotética entrevista como imaginei se o Alcides fosse o Cléber Machado. As perguntas são as mesmas que o repórter fez para o governador.
O senhor se reuniu ontem (quinta-feira) com partidos da sua base para discutir a sucessão. O que ficou acertado no encontro?
É uma questão pontual. 2010 está chegando e alguém vai ter de disputar a eleição. Quem vai ganhar? Pode ser o Iris ou o Marconi. Ou um terceiro nome, se conseguir fazer mais votos que todo mundo. Pode dar empate? Neste caso não. As regras são claras. O PP, o PSB, o PR e o DEM querem participar da eleição? Querem. Sempre quiseram? Sim. Isso é estrutural? É. Mas também é pontual. Como vamos caminhar para 2010? O Mabel pode ir comendo bolacha? O Barbosa Neto pode achar que sim. O Caiado não gosta de bolacha, prefere comer um bom bife. Isso precisa ser acertado numa reunião? E se no avião que estiverem juntos não tiver bolacha, só bife? Vai mudar algo na eleição? Talvez. Ou não.
Os partidos já têm um pré-candidato definido?
Temos nomes definidos. O do Ronaldo Caiado, por exemplo, é Ronaldo Caiado. Já está definido. Isso quer dizer que o Ronaldo Caiado é candidato ao governo? Pode ser. O Mabel pode achar que sim. O Barbosa Neto pode achar que não. O nome do Sérgio Caiado, apesar de Caiado, é Sérgio. Isso já está definido? Está. Muda alguma coisa? Não sei.
É possível fugir da polarização entre PMDB e PSDB, que são tidas como forças hegemônicas, polarizantes, da política do Estado?
Goiás tem 6 milhões de pessoas e cada uma pode ter vários nomes que gostariam de ver no governo. Na opinião delas. Tem gente que acha o Pedro Ludovico melhor que o Iris e o Marconi. Mas o Pedro pode derrotar os dois? Não. Ele morreu. Eu posso colocar o corpo dele lá na disputa? Talvez. Mas quem vai votar num corpo? Isso quer dizer que a disputa vai ficar entre Iris e Marconi? Pode ser. Ou não. É uma questão estrutural. Você pode achar que o eleitor escolhe o governador pelo nome do candidato. Eu já acho que é pelo projeto. Nós temos um projeto? O Caiado acha que sim. O outro Caiado pode achar que não. Mas qual a diferença entre um projeto individual e um projeto coletivo? Aí já é algo estrutural. Uma pessoa está isolada do coletivo? Não. Então eu posso dizer que um projeto pessoal é um microprojeto, uma parte do projeto coletivo? O Iris pode achar de um jeito. E eu achar completamente o contrário. Ou não.
Qual é o projeto desse grupo político?
Acho que o primeiro projeto é marcar um segundo encontro. Depois, precisamos pensar se é possível dizer que já temos um projeto coletivo? Ou temos ou não temos. Mas se ele estiver sendo montado, então temos e não temos ao mesmo tempo. E se juntarmos todos os projetos individuais, não dá um coletivo? O Caiado pode pensar que sim. O outro pode dizer que não.
O senhor falou em forças (políticas). O PP é forte sem o PSDB?
Se pegar todo mundo do PP e todo mundo do PSDB e colocar numa arena quem vai ganhar a luta? O mais forte? O Leonardo pode achar que sim. O Sérgio pode falar que não. E se alguém tiver armado? A força neste caso vai mudar alguma coisa? Se o PP encontra o PMDB na rua e resolve bater nele, o PSDB precisa estar perto para segurar? Mas quem vai bater na gente é mais forte ou mais fraco? Precisamos da ajuda do PSDB para bater em quem?
Mas não foi o PP que propôs a ruptura?
Eu não sei se é de hoje, se é de ontem, se é de muito tempo, há uma discussão muito pontual nos jornais. A pontualidade faz parte, não tenha dúvida, você não pode esquecer. E tem esse papo de ruptura. Houve uma ruptura? Houve. A vida inteira? Não. Todo o tempo em que o PP e o PSDB estiveram em Goiás presentes estivemos rompidos? Não. Mas houve uma ruptura? Houve. A ruptura ainda existe? O Balestra pode achar que não. O Leréia pode achar que sim. A discussão é pontual? É. Mas não é. Porque é estrutural.

"Posso ser candidato em 2010? A Folha de São Paulo acha que sim. A imprensa goiana acha que não. É uma questão pontual."






